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domingo, 16 de janeiro de 2011

Poema: Angústia



Para Paulo

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós, 
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!... e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! – 
O brilho duma estrela, com o vento!...

E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...”

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

(Florbela Espanca)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Poema: Neurastenia


Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...
O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...
Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

(Florbela Espanca) 

sábado, 1 de maio de 2010

Poema: Bom Dia, Tristeza


Para Amanda Macedo... 

Bom dia, tristeza 
Que tarde, tristeza
Você veio hoje me ver
Já estava ficando
Até meio triste
De estar tanto tempo
Longe de você

Se chegue, tristeza
Se sente comigo
Aqui, nesta mesa de bar
Beba do meu copo
Me dê o seu ombro
Que é para eu chorar
Chorar de tristeza
Tristeza de amar


(Vinicius de Moraes / Adoniran Barbosa)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poema: Retornello


Eu morri naquela noite
Foi naquela noite que eu morri
Corpo gelado estendido no chão
No chão há um corpo gelado
Também há uma carta
Mas ninguém viu a carta
Nem o corpo que estava no chão
Eu morri naquela noite
Sozinho eu morri
Você não viu o meu corpo?
Sozinho está meu corpo gelado estendido no chão
Uma noite sem ninguém
Não havia ninguém além de mim

(Lord Klavier)

Poema: Memórias de um desistente


Lembro da infância perdida
Da época em que era apenas o agora
Lembro da vida tranquila
Do mundo que não existia
Lembro dos sons
Das músicas que eu ouvia
Lembro de você
Dos olhos que não me viam
Lembro de tudo
E de todos
Lembro de fingir
Foi por isso que desisti


(Lord Klavier)

domingo, 20 de setembro de 2009

Poema: Comigo



Amigo, venha caminhar comigo
E mostrarei que a noite é mais clara que o dia
Que a sua força é maior que a minha
Mas me machucar não é permitido

Amigo, venha caminhar comigo
Pois assim seremos menos tristes
O sofrimento não te proíbe
De derrotar seus inimigos

Amigo, venha caminhar comigo
Veja! As estrelas nos esperam
Somos maiores do que éramos
Apenas por sermos amigos

Então, venha caminhar comigo
Pode apoiar-se em meu corpo
Mais do que isto eu não sofro
Não vê que este é o corpo de seu amigo?

Amigo! Porque não queres caminhar comigo?


(Lord Klavier)

domingo, 22 de março de 2009

Poema: Minha Própria Tortura

Não me aguento dentro de minha própria pele
Encurralado contra ossos e carnes
Eu faço minha própria tortura
Pois a tortura é ser eu
Talvez eu possa dar um fim a isso
Se eu pudesse viver fora de mim
Eu o faria
Caindo a cada dia
Estou na lama
Nas garras do demônio
Não consigo sair daqui
Mas gostaria poder
Porque estou preso dentro de mim
Já estou farto de pensar
Pois o mínimo impulso cerebral
É capaz de desencadear horrenda dor
Minha vida é ser sempre o último
Eu possuo vida?
Esquecido pelos outros e por mim
Quem pode me ver ou me ouvir?
A minha derrota é previsível
Mas já não sou um derrotado?
Caindo a cada dia
Não viver seria a escolha mais fácil
Mas eu quero sair daqui
Eu faço minha própria tortura
Caindo a cada dia
Portanto meu holocausto também
O fim de tudo é logo ali
Já estou farto de pensar
Entretanto é tudo o que me resta
Ficar preso dentro de mim
Caindo a cada dia
Até que meu corpo encontre o chão

(Lord Klavier)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Poema: Morte (Hora de Delírio)


Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
– Dessa alma vã e desse corpo enfermo.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és a ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

Nunca temi tua destra,
Não sou o vulgo profano:
Nunca pensei que teu braço
Brande um punhal sobre-humano.

Nunca julguei-te em meus sonhos
Um esqueleto mirrado:
Nunca dei-te, pra voares,
Terrível ginete alado.

Nunca te dei uma foice
Dura, fina e recurvada;
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel, ou culpada.

Amei-te sempre: – e pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, – esse elemento,
Que não se sente dos vaivéns da sorte.

Para tua hecatombe de um segundo
Não falta alguém? – Preenche-a tu comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Miríadas de vermes lá me esperam
Para nascer de meu fermento ainda.
Para nutrir-me de meu suco impuro,
Talvez me espera uma plantinha linda.

Vermes que sobre podridões refervem,
Plantinha que a raiz meus ossos ferra,
Em vós minha alma e sentimento e corpo
Irão em partes agregar-se à terra.

E depois nada mais. Já não há tempo,
Nem vida, nem sentir, nem dor, nem gosto.
Agora o nada, – esse real tão belo
Só nas terrenas vísceras deposto.

Facho que a morte ao lumiar apaga,
Foi essa alma fatal que nos aterra.
Consciência, razão, que nos afligem,
Deram em nada ao baquear em terra.

Única idéia mais real dos homens,
Morte feliz, – eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.

Também desta vida à campa
Não transporto uma saudade.
Cerro meus olhos contente,
Sem um ai de ansiedade.

E como autômato infante
Que ainda não sabe sentir,
Ao pé da morte querida
Hei de insensato sorrir.

Por minha face sinistra
Meu pranto não correrá.
Em meus olhos moribundos
Terrores ninguém lerá.

Não achei na terra amores
Que merecessem os meus.
Não tenho um ente no mundo
A quem diga o meu – adeus.

Não posso da vida à campa
Transportar uma saudade.
Cerro meus olhos contente
Sem um ai de ansiedade.

Por isso, ó morte, eu amo-te, e não temo:
Por isso, ó morte, eu quero-te comigo.
Leva-me à região da paz horrenda,
Leva-me ao nada, leva-me contigo.


(Junqueira Freire 1832 - 1855)

domingo, 15 de março de 2009

Poema: Transfiguração



Das manhãs de solidão profunda
Às noites de desespero desconsolado
As aflições que vêm a tona
Para, de mim, se acabarem
As interrogações surgem sem respostas

As trevas consomem depressa
A cada estrela que surge a brilhar
É cada minuto que se esvaia
Por que a morte não dá um fim a isso?

A dor é cada vez mais profunda
O corpo se retorce com muita relutância
O organismo tenta lutar contra o outro
Mas as trevas consomem depressa
A cada estrela que surge a brilhar
É cada minuto que se esvaia

A minha batalha contra isso é em vão
A minha tormenta exclusão
Só alimenta ainda mais a fome
Eu já não tenho mais forças para lutar

O meu sentido aguçado me arrasta
Arrasta-me para onde eu mais temo
Para onde eu menos desejo
Quando o fim da linha chegar
A surpresa será enorme
Mas é muito difícil controlar-se

Ela me olha
Eu a reconheço
Ela me repugna
Mas eu a desejo

O grito quebra agudo na escuridão
Os meus olhos a admiram perplexos
Os meus dentes a devoram com vontade
O remorso vem aos prantos
Ou seria aos uivos?

Mas já não dá mais para lamentar
A escuridão se dissipa
A lua se esconde
Mas eu nunca irei animar

Por que a morte não dá um fim a isso?
Porque é sempre assim:
Das manhãs de solidão profunda
Às noites de desespero desconsolado

(Lord Klavier)